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DEVANEIOS SOBRE O TEMPO I

 

Por vezes meu peito ferve, e me retenho para não extravasar um olhar a mais a procura da vida que baila nos silêncios, na palavra não dita, no beijo aguardado, na luz dissipada de um peito que transborda... E piso como quem pisa em diamantes preciosos e frágeis, uma pérola de cristal, um verso de vida e arte, esquecido do brilho que mantém o raio faiscante que encanta e alumia, soberano e doce, calado e árduo; agridoce, misteriosamente translúcido pelas lentes dos olhos meus que decifraram a esfinge e guardaram o segredo em um baú trancado pela eternidade. E pelo tempo que anula e oferece a capacidade de compreender que ele, hoje, é para isso e não aquilo.

O tempo hoje é de colher o que foi plantado e de plantar a colheita futura. E ele é sábio,  conhecedor da necessidade de amadurecer as coisas antes de pô-las na mesa, para que o fruto possa exalar, com propriedade, o gosto nobre da criação. Arrancá-lo antecipadamente da árvore é matar em nós o sabor doce que ele nos ofereceria se esperássemos o momento certo, a época certa, o dia certo, a hora certa.

Depois da tempestade, o sol glorioso e forte canta ao meu ouvido as cores que abrem o coração para o novo tempo que, de tão louco, é dono de uma lucidez que a nossa vã ignorância não consegue ainda alcançar...

 

 

DEVANEIOS SOBRE O TEMPO II

 

A vida não espera...

Incansável pulsa o coração que anuncia a melodia do espírito. Quem cansa somos nós, quem morre somos nós, mas o tempo continua... Somos os olhos dele, somos os beijos dele, somos a lua dele, somos as mãos do tempo dele, somos a música com que ele anuncia um novo tempo.

É preciso, apenas, esquecer e continuar mais um passo adentro no tempo que me dá a certeza de ser criança, e minha alma pueril vive a brincar com ele só para sentir mais uma vez essa carícia sagrada e eterna que é a mão do tempo nos colocando ao colo em um aconchegante manto; embalando-nos; embalando-nos e dizendo : tudo passa, tudo segue, é só um passo a mais para a eternidade; olhe para trás e verás  o quão miúda foi a tua vida; olhe para frente e sinta o horizonte infinito chamando-te para desvendar um caminho que não cabe nos teus olhos, o que passou não é nada frente ao que estar por vir. E a felicidade é para além, é acreditar no porvir...

E o que fazer quando o porvir nos chama, senão aperfeiçoar a beleza do caminho...

O tempo de tão louco é dono de uma lucidez que a nossa vã ignorância não consegue ainda alcançar... 



- Enviado por: Drika Duarte às 15h02
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